RSS Feed

From your man in the Gipsy Town: As Naus Portuguesas voltam a chegar ao novo mundo.

Nos anos negros da Nona Arte em Portugal (hiato entre o fim da A/CJ e início da Devir) dei por mim a descobrir a revista Wizard (que morreu este ano de 2011 para logo em seguida renascer tal Fénix Sombria na W.W.W.).

Foi na dita revista que me deparei com um artigo, onde o responsável pelo mesmo tecia largos elogios à vaga de artistas espanhóis que começavam a chegar às editoras Norte-Americanas nessa altura (1998) o que me dava alguma ‘azia’ sem saber bem o porquê.

Carlos Pacheco, Salvador Larroca, Ramon F. Bachs e muitos outros eram considerados deuses da arte; verdadeiros achados na velha Europa, dignos herdeiros do trono da Arte Sequencial, o que me deixou a pensar o que teriam estes ‘Nuestros Hermanos’ a mais do que os artistas nacionais.

Não posso dizer que tenha uma grande alergia a Espanha, mas na altura foi este artigo que me fez querer descobrir artistas nacionais e lutar pela sua divulgação em todos os projectos em que me envolvi.

Foi então (no longínquo ano de 1999) que decido descobrir com a ajuda da Biblioteca Municipal do Pinhal Novo e também da Selecções BD (2ª série) os artistas Portugueses que se faziam notar na altura.

Devo dizer que se a azia era grande depois de ler o artigo da Wizard, esta ainda se tornou maior, pois com a excepção de um artista Português radicado em França, que como eu adorava comics e que dava mostras de querer fazer florescer este estilo em ‘franciuland’ (através do seu ‘A Gesta das Amazonas Dragões’*) todos os restantes autores Portugueses aos quais tive acesso não fizeram mais que aborrecer o jovem de quinze anos que eu era na altura.

Photobucket   Photobucket                   

Viviam-se então, na minha opinião, anos negros na BD em Portugal, pois para além dos autores nacionais mais consagrados como ET Coelho, não se via qualquer autor que se conseguisse afirmar além fronteiras.
Não era um deserto criativo, entenda-se, pois para além do prolífero Luís Louro, de um mitocondriaco que nada fez de relevante em quase 15 anos de actividade e de um estúdio muito interessante, o Fantasia Estúdio (Pedro Potier e Ana Freitas eram os mais produtivos desse estúdio) que produzia histórias para a SBD, ninguém parecia conseguir produzir nada que chegasse ao grande público e que despertasse a curiosidade além fronteiras.

 

Os anos passaram-se e é já a meio da primeira década do séc.XXI que uma série de autores que apresentarei neste post começam a penetrar, ainda que timidamente, o mercado norte-americano e a, pasmemo-nos, ser publicados nessas terras longínquas.

 

Miguel Montenegro, o operário. – http://www.miguelmontenegro.com/

Na nona arte existem dois tipos de autores, os ‘artistes’ e os operários. Enquanto que os primeiros vivem dos subsídios e fazem de vez em quando uns álbuns, que mais ninguém aprecia a não ser os iluminados e os próprios; os segundos multiplicam-se em actividades paralelas para não desistirem do sonho de criar banda desenhada.

É nesta segunda categoria que incluo Miguel Montenegro, que teve a seu cargo alguns ‘fill-ins’ em editoras Norte Americanas (Top Cow, IDW, CrossGen, Marvel comics), mas que infelizmente não conseguiu passar para o nível superior, como as dezenas de espanhóis e brasileiros que ainda hoje chegam à primeira Liga ‘Marvete’ e ‘DCNete’.

Apesar de ter um traço pouco original (vê-se muito a influência da Image Comics dos anos 90), vale aqui a sua perseverança e profissionalismo, o que torna ainda mais estranho o facto de nenhuma editora nacional ter apostado neste autor (em Portugal apenas a Devir publicou duas capas do artista) pois sempre deu provas de conseguir assegurar um trabalho regular ao contrário de muitos ‘artistes’ venerados pelas editoras tradicionalistas.

Photobucket

 

 

Eliseu Gouveia, o Eremita. – http://eliseugouveia.deviantart.com

Ora aqui está um grande mistério; a primeira vez que tomei contacto com este artista foi num manual escolar de segundo ciclo e qual foi o meu espanto quando anos depois me dou conta que o desenhador de Cloudburst da autoria de Jimmy Palmiotti e Justin  Gray era nada mais, nada menos que este autor Português, que graças ao seu grande profissionalismo e capacidade de respeitar deadlines, chegou a ser apontado como o autor Português mais promissor.
Nunca tive a oportunidade de o conhecer ao vivo, porque o mesmo se recusava a comparecer em festivais (tentei tê-lo no Festival de BD do Pinhal Novo em 2005 através da Devir, mas à ultima hora decidiu não comparecer) e apesar de ter a sua arte publicada em diversas pequenas editoras americanas (Image, Moonstone Books) e de ser o responsável pela BD oficial da personagem Leopoldina da marca Continente/Modelo, nunca se percebeu muito bem o porquê das editoras nacionais o ignorarem por completo.

Photobucket

Em termos de traço, é muito competente a nível de lápis e arte final, mas borra a pintura  (literalmente) quando decide ser ele próprio a fazer a colorização digital, pois o artista torna muito plástica e demasiado brilhante a sua arte, mas isto sou eu falar, porque o que é certo é que além fronteiras sabem reconhecer o seu valor.

Photobucket

O artista possui um Deviant Art muito activo onde mais recentemente apresenta imagens de uma nova BD do qual se sabe ainda muito pouco.

Photobucket

 

Nuno Plati, the Cool Guy. – http://nunoplati.blogspot.com/

Já imaginaram o que é ter um artista que consegue cativar o sexo feminino para a Nona Arte? Ora metam um argumento nas mãos do Nuno Plati e vejam o que acontece.

Photobucket

Plati é mais ilustrador com todos os seus ‘vectores’ e ‘flashy colours’ do que artista de Banda Desenhada (é colaborador assíduo da Elle magazine e do Lisbon´s fashion week) mas no último ano viu o seu trabalho publicado na Marvel primeiramente na série Avengers’ Fairy Tales, X-23 e Marvel Women e mais recentemente no comic Marvel Girl onde revisitou a origem da personagem Jean Grey a.k.a. Phoenix.

Photobucket

Apesar de ter sido o último a ‘chegar’ a Marvel já conseguiu a proeza de fazer um fill-in na revista Amazing Spider-man (só e apenas um dos comics que mais vende nos EUA) e prepara neste momento um álbum em nome próprio, não sei se para publicação caseira ou internacional (Mia, tales of the lost islands).

Photobucket

 

Ricardo Tércio, o Pioneiro. – http://mautempopush.blogspot.com/

Quando o editor da Marvel CB Cebulski fez passar por Portugal a busca de Talentos ChesterQuest, este foi o primeiro a ser publicado pela editora Norte-Americana. Tal como Nuno Plati podemos considerá-lo mais ilustrador do que desenhador de Banda Desenhada, mas ninguém lhe poderá tirar o mérito de ter sido o responsável pelo primeiro capítulo da série Spider-man Fairy Tales que teve como personagem central a mais que tudo de Peter Parker, Mary Jane a fazer de conta que é a Capuchinho Vermelho (prometo que não é picante).

Actualmente tem feito mais algumas capas para a Marvel Comics, o quarto capítulo da série Avengers Fairy Tales e acompanha o artista Filipe Andrade na mini-série Onslaught: Unleashed.

Photobucket

 

João Lemos, o Menino Perdido. http://sete-estrelo.blogspot.com/

Assim como Ricardo Tércio, também João Lemos foi seleccionado no Chesterquest e teve a honra de abrir a série Avengers Fairy Tales com uma brilhante versão da origem dos Vingadores, como se estes fossem os Meninos Perdidos de Peter Pan.

Photobucket

Dos três artistas descoberto no ChesterQuest considero-o como sendo o mais desenhador de Banda Desenhada dos três, ainda que sendo o mais discreto.

 

Possui dois projectos próprios em produção (Shiki e HEY DAY), fez também uma história para a série Mouse Guard e mais recentemente ficou a seu cargo o argumento de um capítulo do álbum Wolverine#1000 (onde também fez duas páginas de arte).

Photobucket

 

 

Filipe Andrade, o Principe Valente – http://filipeandradeart.blogspot.com/

Deixei para último o meu favorito, apesar de reconhecer a qualidade de todos os outros e passo então a apresentar a forma como conheci Filipe Andrade.

Foi em 2007, a poucas semanas de me reformar da minha posição auto-assumida de Carlos Queiroz da BD nacional na Nono Império que me deparei com os trabalhos de Filipe Andrade na primeira versão do BD Jornal.

Photobucket

O argumento do seu camarada de vinhetas era/é pobrezinho, mas a arte deste rapaz salvava tudo, não pela originalidade do traço, mas pelo dinamismo e frescura que trazia ao panorama nacional e às páginas do referido jornal.

 

Lembro-me que na altura, depois de dar por encerrada a última sessão de autógrafos do projecto Sketchbook no FIBDA, decidi ir para a fila do Mr. Andrade pedir-lhe um rascunho (não o costumo fazer porque tenho um bocado de vergonha de ir chatear os artistas), mas digo-vos que bastaram dois minutos à conversa com o artista para perceber que ele tem em si as qualidades que eu defendo que um artista de BD em Portugal (e no mundo) deve possuir, isto é, humildade, inteligência e ambição.

 

É por isso com muito orgulho que nomeio, mui humildemente, este artista com o cognome ‘Jack Kirby Português do século XXI’ (sim Mr. Kingpin, sou um erége).

E porquê?

Depois de uma corrida de fundo em BRK, diversas short stories para diversos fanzines, dezenas de páginas publicadas em comics da editora Marvel (X-23, Nomad, Onslaught) este artista continua a fazer evoluir o seu traço cada vez mais dinâmico e interessante.

Photobucket

É um pouco graças a ele que neste momento os vários artistas a trabalhar para o mercado norte-americano o continuam a fazer, pois ele mostra que os artistas Portugueses conseguem ser produtivos e extremamente activos.

(Nota: Acaba de ser anunciado que Filipe Andrade será o artista na adaptação de um dos livros mais ‘venerados’ de Edgar Rice Burroughs, John Carter: Princess of Mars’ – série de 5 números a ser encomendada este mês com chegada as livrarias em Setembro de 2011).
Posso estar a ser muito injusto com todos os outros artistas que referi, mas Mr. Andrade, admitamos, tem o ritmo produtivo mais célere que alguma vez vi e a ambição para criar raízes no mercado Norte-Americano.

Photobucket

Não sei se algum dia terei a oportunidade de ver uma revista internacional a enaltecer os nossos artistas como foi feito com os espanhóis há mais de dez anos atrás, mas neste momento sinto que é uma excelente altura para se ser artista de BD em Portugal , pois existe como que um embrião de esperança para aqueles que todos os dias não cruzam os braços e criam Nona Arte em Portugal.

É certo que estamos numa fase algo cinzenta na edição de comics em Portugal com a chamada ‘fase das sobras Brasileiras’, mas tenho esperança que um dia os artistas nacionais tenham direito a ver o seu trabalho publicado em Língua Portuguesa num formato que enalteça o grande feito destes artistas (editoras nacionais, dirijo-me a vós) que tal como Pedro Alves Cabral fizeram as ‘naus’ chegar a solo Americano.

*A Gesta das Amazonas Dragões foi recentemente publicado pela Marvel em TPB, mas já tinha sido anteriormente publicado pela Devir em formato álbum a cores e publicado na SBD a preto e branco, a minha versão favorita.

Anúncios

About sketchbookportugal

Revista On-line sobre Banda Desenhada e muito mais.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: