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Cine Kritik II

The Spirit – por Rui Inácio

Frank Miller foi dos primeiros argumentistas a passar da sétima para a nona arte em finais dos anos 80, mas até chegar às mãos de Robert Rodriguez as suas contribuições para a história do cinema resumiram-se a duas sequelas de Robocop muito pouco conseguidas, que tentavam passar para o celulóide a técnica narrativa de The Dark Knight Returns , obra com a qual Miller tinha sido mais que premiado enquanto argumentista / artista de comics.

Em 2005, Rodriguez apurou diversas técnicas cinematográficas/tecnológicas inovadoras que permitiram uma passagem quase perfeita de Sin City para o grande ecrã, e como se não bastasse, fez até algo proibido pelo sindicato dos realizadores ao convidar o próprio Frank Miller a co-realizar a obra, de maneira a que o resultado final fosse o mais próximo possível do original. A aposta de Rodriguez deu frutos (e que frutos) e ao mesmo tempo plantaram sementes na mente de Miller, que lhe viriam a permitir realizar um sonho de infância.

Will Eisner é sem dúvida o mais inovador criador de Banda Desenhada de sempre, o seu trabalho ao longo de mais de seis décadas nunca estagnou e ao contrário de muitos autores modernos, Eisner mantinha-se atento às inovações artísticas (que de certa forma se baseiam nas suas técnicas que revolucionaram o modo de se contar uma história nos anos 40-50) e aos 75 anos continuava a produzir maravilhosos romances gráficos repletos de dinamismo e sentimento de modernidade.

Miller, um apreciador devoto do trabalho de Will Eisner, tinha um sonho, adaptar uma das obras mais significativas do decano autor para que as novas gerações pudessem apreciar e compreender como Eisner é sem dúvida um dos criadores mais importantes da cultura Pop do Século XX. Para tal, Frank muniu-se das armas que o seu amigo Rodriguez lhe passará para as mãos aquando da realização de Sin City e mais do que tentar fazer uma transposição fiel do traço de Eisner para a tela de cinema, Miller criou um filme que, à sua maneira, tenta inovar o modo de narração cinematográfica com recurso às novas tecnologias, baseando-se livremente nas técnicas que Eisner deu ao mundo na Nona Arte.

O filme é rotulado por muitos como o Sin City ½ por utilizar até à exaustão as mesmas técnicas de blue/green screen , por tentar apelar aos apreciadores de filmes noir com as cores a serem utilizadas apenas em aspectos específicos do filme (e.g.: a gravata de Spirit, vermelha como o sangue, plenamente identificável nos fortes contrastes preto/branco que caracterizam o filme) e por não ser um clone perfeito da obra original.

Segundos as palavras de Frank é impossível imitar o que o mestre fez e o que Miller consegue no máximo é uma homenagens onde se tenta aqui e ali aplicar o dinamismo próprio da técnica narrativa de Eisner.

Nos EUA, o filme ficou aquém das expectativas dos distribuidores, assim como do público de filmes que se tem de consumir ao longo de seis anos e que não percebeu que um filme de super heróis não tem obrigatoriamente de ser um louvor ao heroísmo, sério e dogmático como nos temos vindo a habituar a ver, principalmente, nos filmes da Marvel.

The Spirit foi o primeiro anti-herói e foi-o, porque apareceu numa altura em que enquanto os grandes ícones lutavam contra o nazismo, Spirit mantinha a paz na sua cidade imaginária de uma forma humorística (e algo negra), em que as recompensas não eram louvores patrióticos, mas sim voluptuosas damas que se entregavam de corpo (e às vezes de coração) a um homem misterioso que era a antítese da imagem que a América dos anos 40-50 tinha de como as pessoas se deviam comportar.

Miller não faz uma transposição perfeita da criação de Eisner, mas é fiel ao que faz de Spirit, THE Spirit. Isto é, o humor negro e algo corrosivo está presente neste filme (a cena do gato cobaia é digna das melhores comédias britânicas), o lado bon vivant também não falta à chamada e mesmo que hoje em dia já não nos choque que um homem ou uma mulher tenham mais do que um parceiro sexual, a maneira como Miller nos apresenta o facto de Spirit ser um mulherengo faz-nos corar como se estivéssemos a ver o ‘Ultimo Tango em Paris’ pela primeira vez em 1975.

Será The Spirit uma obra incompreendida? Sim, podemos considerar que o é, mas o realizador tem algumas culpas no cartório.

O filme começa de forma dinâmica, as personagens e a forma de apresentação das mesmas são interessantes, mas à medida que o mesmo avança vai tornando-se previsível e termina de forma bem enfadonha, deixando em aberto uma possibilidade de sequela, à qual Miller, se for inteligente, nunca irá dar forma.

Miller consegue trazer o lado inovador de Eisner para a Sétima Arte e tal como Speed Racer esta obra ainda vai servir como base obscura a uma futura geração de cineastas, mas Frank falha redondamente ao tentar trazer para o mundo do celulóide o modo perfeito como Will Eisner contava uma história.

Frank Miller tem pelo menos a seu favor o facto de considerar que o seu filme é apenas uma tentativa modesta de homenagear um vulto da Nona Arte; uma atitude que faz falta à maioria dos realizadores, que se aventuram a adaptar obras/personagem de Banda Desenhada de uma maneira que eles consideram ser única e infalível.

Deixei para o final a referência aos actores que fazem este filme, porque a personagem principal desta obra nem sequer é a que lhe dá nome, mas sim a própria cidade que como Spirit diz, é a sua protectora e a sua amante.

È um filme que peca por apresentar muitas personagens num curto espaço de tempo (principalmente femininas) com muito pouca profundidade e que acabam por roubar tempo a outras personagens que deviam ser mais trabalhadas (e.g.: Inspector Doyle).

Destaco a mais que magistral interpretação de Samul L. Jackson que interpreta um psicótico e divertido Octopus, que na minha singela opinião consegue ser um vilão mais completo e original que o Joker de Heath Ledger; de destacar também a competente interpretação de Gabriel Macht, que apesar de não conseguir fazer brilhar na totalidade o personagem The Spirit, capta-o na sua essência, como Christopher Reeves conseguiu fazer com muito mais mestria em Superman. Em termos de argumento, Miller podia ter sido um pouco mais arrojado nas falas de Macht, o que o teria ajudado a estar mano-a-mano com Jackson, que definitivamente rouba a cena quando os dois partilham o ecrã.

O elenco feminino é quase amorfo; muitas meninas com mais silicone do que cérebro e que em termos narrativos servem apenas para Spirit fazer uso da sua arma mais mortífera, a sedução. Eva Mendes volta a desiludir como sempre o faz em filmes de acção mais sérios (ver Ghost Rider ou Once Upon a time in México) com o seu modo de representar ‘leitura de teleponto’; Scarlett Johansson apesar de representar uma personagem forte e interessante, neste filme (por mais que ela se recuse a admitir) mostra apenas ser a menina mimada e calculista que verdadeiramente é através da personagem Silk Floss. Do rol de actrizes aquela que mais presença terá será ainda Sarah Paulson, que no papel de filha do inspector Dolan representa de modo agradável a mulher na vida de Spirit que sabe que nunca vai ser dona do seu coração, mas que continua a amá-lo incondicionalmente, aproveitando as ‘migalhas’ que o herói lhe vai concedendo.

No geral é um filme que não desilude e que é aquilo que Frank Miller pretendia que fosse. Leva duas vinhetas e meia (em cinco) e o ‘meia’ que dá para piscar olho às três é graças a Samuel L. Jackson.

SPIRIT

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