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Ultimate Spider-Man: análise!

As conversões banda desenhada/videojogos, tal como as adaptações cinema/videojogos (e vice-versa), são normalmente olhadas com desconfiança pelos jogadores, receosos da trituradora máquina de marketing por trás de cada licença e da visão muitas vezes redutora e gananciosa das editoras. Spider-Man, criação de Stan Lee e Steve Ditko e uma das mais famosas e lucrativas séries da Marvel, conta com mais de 40 anos de publicação no meio da banda-desenhada e ao longo da sua história foram feitas muitas conversões – de qualidade questionável – das suas aventuras para o mundo dos videojogos (o primeiro remonta ao ano de 1982 e à Atari 2600, num total de mais de vinte títulos http://en.wikipedia.org/wiki/Spider-Man_video_games).

Após um período negro em meados dos anos 90 em que a Marvel atravessou grandes dificuldades financeiras, no início do novo milénio a personagem ressurgiu simbolicamente com uma nova força através do “remake” Ultimate Spider-Man (argumento de Brian Michael Bendis e arte de Mark Bagley) e de uma aclamada – crítica e financeiramente – transição para o mundo do cinema pela mão do realizador Sam Raimi. Isto serviu de catalisador e pretexto para uma conversão do filme para videojogo, e foi então que a Neversoft deu, definitivamente, um novo estatuto e respeito ao super-herói na indústria dos videojogos, inteligentemente focando a experiência nas potencialidades dos super-poderes da personagem. A sequela – mais uma vez adaptação, desta feita da segunda incursão cinematográfica do aranhiço –, agora desenvolvida pela Treyarch, instaurou uma nova mecânica de jogo sandbox e free-roaming http://en.wikipedia.org/wiki/Sandbox_game#Sandbox_mode na série e conseguiu libertar-se do estigma de conversão fiel ao cinema, dando outro espaço à personagem para ser desenvolvida. Em Outubro de 2005 foi editado Ultimate Spider-Man, “sequela espiritual” de Spider-Man 2 e título aqui analisado na sua versão PS2.

O universo Ultimate é uma recriação da história de várias personagens Marvel, existindo num mundo paralelo criado para suscitar o interesse de um novo público e revisitar as origens dos super-heróis de forma alternativa, colocando-os num mundo contemporâneo e mudando diversos aspectos da sua vida. Em Ultimate Spider-Man vemos um Peter Parker jovem, ainda estudante de liceu e webdesigner em part-time no Daily Bugle, situando-se a história três meses após a libertação da substância que originou Venom, um velho amigo de Parker que se deixou consumir pela simbiose – note-se que o enredo foi escrito pelo próprio Brian Michael Bendis http://www.comicbookresources.com/?page=article&id=5069, enquadrando-se no cânone da série: foi recentemente adaptado à BD no último arco narrativo.

Enquanto videojogo, Ultimate Spider-Man pode ser encarado como uma espécie de spin-off, tal como a sua congénere de banda desenhada; contudo, a mecânica deve a sua estrutura quase por completo à obra anterior da Treyarch, sendo também, tal como nos comics, essencialmente uma reinterpretação, neste caso, a nível da jogabilidade, de Spider-Man 2. A diferença mais notória é que desta vez iremos controlar ao longo da aventura – alternando entre ambos automaticamente até ao final do jogo – duas personagens distintas: Spider-Man e Venom.

O controlo de Spider-Man caracteriza-se pela grande sensação de liberdade que transmite ao jogador, com uma impressionante – para os “standards” da PS2 – recriação livre de Nova-Iorque, decorrendo o jogo sobretudo na zona de Manhatan e Queens. Na pele do cabeça de teia vamos encontrar um sistema de missões que nos fazem progredir na história e que para serem desbloqueadas requerem a execução de um determinado número de tarefas menores – combates contra gangues, city events (impedir assaltos, levar pessoas feridas ao hospital…), corridas e procura de centenas (literalmente) de ícones escondidos pela cidade. Estas pequenas missões acabam por se perder numa monotonia e repetição desnecessárias, enquanto as missões principais, onde se desenvolve a narrativa, se aproximam demasiado de uma jogabilidade de tentativa e erro frustrante e de lutas – ou corridas – banais contra bosses.

A presença de Venom traria, supostamente, uma nova abordagem; no entanto, enquanto não terminarmos a aventura principal e desbloquearmos a capacidade de alternar livremente entre as duas personagens, as fases em que controlamos a personagem resumem-se, novamente, a lutas contra bosses ou a um Beat’em up muito limitado e simplista que incentiva ao “button-mashing”.

Este é um título claramente desequilibrado, em que o atraente grafismo – uma tecnologia derivada do cel-shading que o tenta aproximar ao estilo de Mark Bagley (que trabalhou no design das personagens) e de uma banda-desenhada digital (pormenor realçado nas cutscenes pela utilização de painéis) – e o playground cedido ao jogador encontram uma importante contradição numa mecânica de jogo que se repete exaustivamente. Há duas personagens divergentes para controlar e uma cidade aberta à exploração – mas não há nada que valha a pena descobrir. Logo na primeira hora de jogo Ultimate Spider-Man revela todas as suas virtudes e defeitos, encontrando-se tão dividido quanto a dicotomia que tenta impor com o confronto entre o seu herói e anti-herói. No entanto, comparado com a maioria das conversões medíocres de outros media a videojogo que inundam o mercado, destaca-se nesse subgénero, funcionando melhor como uma espécie de comic interactivo – a originalidade das cutscenes, a arte de Mark Baigley e o argumento de Brian Michael Bendis são os seus pontos fortes – do que como uma cópia modesta da estrutura de um Grand Theft Auto com super-heróis. 6.5/10
www.escrevervideojogos.blogspot.com

Cumps,

Ruben D

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